
Não foi por acaso, que ele apareceu em minha vida. Numa daquelas tardes tristes de junho, olho pela janela e vejo os três, não sei dizer quem eu enxergava ser o mais infeliz eles ou eu. Por giradas do destino, onde eles viviam não teria mais lugar para os três e eu acolheria um deles. É claro que lhe ofereceria tudo do bom e do melhor, mas não impedia o aperto no coração que eu sentia.
Neste olhar da janela, vi primeiro um homem alto, com aquele olhar verde perdido dos campos do sem fim, um pobre homem, que carregava no ombro muitos fardos de infelicidade. Pela mão, um garotinho e no colo o Lipi, um cachorrinho pequenino de cor bege, todo indefeso por já saber, que seu destino estaria em outras mãos.
Corri para a porta para recebê-los. Quando entraram, a tristeza que os envolvia, logo me contagiou e foram minutos difíceis presenciar a agonia da separação. Ficaram pouco tempo e logo, homem e menino saíram deixando comigo o cachorrinho Lipi. Afobada e meio perdida, corri para a janela e lá chorei tudo o que sentia. Uma avalanche de sentimentos de perda, de tristeza e de agonia.
Logo me recompus, pois estava ali alguém que esperava um aconchego, uma demonstração de carinho.
Vivemos e fomos felizes por quase um ano. Um companheirismo de fidelidade. Não preciso dizer que ele ocupou todos os espaços da casa e acabou dormindo num cobertorzinho, ao meu lado na cama, o tempo que lá ficou.
Com ele aprendi, que a nossa felicidade é fruto de nossa construção. E eu tinha escolhido àquele cachorrinho para representar naquele instante, toda a tristeza que sentia pela incapacidade de resolver situações dos outros e minhas, mas que me marcaram profundamente e até hoje àquela cena dos três chegando em minha casa me causam um mistério profundo.
Ele doce e paciente com aquele andar que me lembram histórias de lordes e príncipes me ensinou a aceitar com alguma resignação os caminhos que às vezes o destino nos leva.
